terça-feira, 22 de abril de 2025

Cinquentando

Cinquenta anos
A metade de uma parte do caminho
Um terço da metade do que desejo
A metade de tudo que amo
Muitas coisas vividas
Outras coisas imaginadas
Decepções, alegrias
Uma vida repaginada
Um casamento, dois filhos
Um cachorro pra ninhada

Cinquenta anos
Mais esporte, menos sofá
Disposição e um pouquinho de preguiça
Leituras, emendas, prosas
Tecnologia, aventura, viagem
Um retorno às origens
Um pulo no futuro
Um café, um cheiro e um queijo
Um pé em dois estribos
Um coração em duas terras:
Piauí e Minas Gerais se fundem
No meu coração e na minha vida

Cinquenta anos
E sempre recomeçando
Cinquenta anos
E sempre revivendo
Cinquenta anos
E sempre relembrando
Cinquenta anos
E sempre com saudades
Pessoas vieram e se foram
Outras chegaram
Algumas, na eternidade
Outras, no presente

Cinquenta anos
Procurando pela vida
Renovada
Assentida
Divertida
Desafiadora
Complexa
Simples
À espera do que virá
Ansiosa pelo que tenho
Feliz pelo que sonho
E realizada pelo que sonhei


sábado, 25 de janeiro de 2020

Humilhação

Ser humilhado é sentir-se frágil
É ter sua dignidade violada
É sentir-se inumano em um mundo de monstros
É sentir-se um monstro manipulado
Incapaz
Inócuo
Indefeso
A humilhação pode vir com palavras
Pode vir com gestos
Pode vir com ações
Pode vir com a falta de ação
Pode vir com o olhar do outro
Com o julgamento
Com a sentença
Ser humilhado é sentir-se em um mar de ilusão
Como um estranho no mundo real
Como uma mãe sem seu filho
A humilhação nunca é justa
A humilhação nunca se justifica
A humilhação nunca é válida
Merece ser também humilhada
Rechaçada
Esquecida
Para nunca mais ser relembrada
E factuada
E sentida
E fim.


Belo Horizonte, janeiro de 2020.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Cordel do letramento


Letramento literário
Para muitos, um bicho-papão
Mas é um bem necessário
A todo cidadão
Que deseja e tem vontade,
Não liga pra vaidade
Mas pra boa educação.

A leitura está em tudo
Quer queiramos ou não
Alguns acham absurdo
Ter sempre um livro à mão
Para ler ou folhear
Emocionar-se ou amar
Ou só fugir à razão.

Quando todos entendermos
Que tudo que somos
Passa pelo que lemos
E tudo que sucedemos
Depende de quem fomos
Perceberemos que  a leitura
Com toda a sua formosura
Dirá se de fato existimos.

Ler é fundamental
Temos um nome ao nascer
Ler também é fatal
A escrita atesta o morrer
Então, por via das dúvidas
Para que não haja feridas
O melhor de tudo é ler

Letramento vai além
Bem mais que ler e escrever
É o conhecimento que se tem
E se adquire ao estabelecer
Processos de interação
Que permite ao cidadão
A faculdade de aprender.

Com as práticas sociais
E a extensão do letramento
Apresento aos demais
O meu contentamento
Através desses versos
Bem simples e bem diversos
O meu planejamento

Seguindo as recomendações
E as leituras sugeridas
Fiz algumas ações
Para três aulas seguidas
Apresento um plano de aula
Com intuito e estímulo
Para atividades extrovertidas

Rildo Cosson  nos sugere
Etapas de preparação
Então o que se segue
Primeiro é a motivação
Estudamos  o autor
Com acompanhamento do professor
Em seguida a interpretação

Esse encontro é fundamental
Do leitor com a obra
É fato primordial
Para o que se desdobra
A inserção no mundo da escrita
Não de forma restrita
Mas de forma primorosa

Assim, dessa maneira
Estou  apresentando
Não um relato inteiro
Mas um trecho fragmentado
De um todo muito maior
Feito com muito amor
Por esse autor consagrado.

Agora entrego a vocês
O que sugere o autor
Uma aula de Português
Em que o aluno é produtor
Através do conhecimento
E do aprofundamento
Ele produz com primor

Estimulando o aprendizado
O professor torna-se poeta
Apresenta ao alunado
Sua própria seleta
Através de um poema
Sem circunflexos nem trema
Mas uma veia secreta

Tornar visível o invisível
Tornar simples o complexo
Apresentar o indizível
Fazer do côncavo o convexo
Expandir os horizontes
Levar a mente além dos montes
Inserir um novo universo.

Expandir e aprender
Sintetizar e relembrar
Ter a chance de compreender
O que está por apresentar
Assim é o professor,
O mestre, o tutor
Na nobre tarefa de ensinar.

Livre adaptação de Rildo Cosson. Letramento literário: Teoria e Prática.

Palavras

Palavras não definem
Elas apenas são
Não tem a pretensão
De nomear ou difamar
Os homens o fazem

Palavras são letras
Soltas no papel
Agrupadas por nossos pensamentos
Os quais lhes dão significados

Palavras não chutam
Nem xingam

Palavras não têm tempo
Nem calor ou frio
Mágoa ou dor

Palavras são criações
Invenções
Predileções
Canções
Invocações
Emoções

Palavras são livres
E, pássaros que são,
Deixemo-nas voar.

Belo Horizonte, maio de 2018.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

CONFIDÊNCIAS DE UMA PIAUIENSE
Por: Ana Glades de Melo Nogueira
Alguns anos vivi no Piauí
Principalmente, nasci no Piauí
Por isso sou assim: alegre e triste, um pouco orgulhosa
Um pouco humilde – de barro
Mas, só um por cento de barro
Noventa e nove por cento de teimosia, vontade de viver,
De superar, de me superar.
E esse estranhamento de tudo que me escapa às mãos,
Não consigo entender.

O desejo de amar, que me leva pra frente,
Vem do Piauí, de suas noites sem nuvens,
Do seu céu estrelado, do seu horizonte tão distante,
Mas não menos belo.

E esse hábito de viver, ah, esse doce hábito,
Isso vem do Piauí.

Pra você,  ofereço o que trago na lembrança:
A lenda do cabeça de cuia, o pote de barro,
O biju feito no fogão de lenha por minha avó,
Essa simplicidade,
Esse jeito...

Não tive fazenda, nem ouro,
Sou professora, sou aprendiz
Mas, o Piauí não é só um retrato na parede
É uma esperança.
Minha vida não é só uma moldura
É uma tela em branco
Que todos os dias ganha uma nova cor,
Novos tons e se modifica,
E muda o ângulo,
Minha vida vai além do que busco
E do que sou.

(Com licença poética a Drummond em Confidência de um itabirano, in Sentimento do Mundo)

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Recomeço

Estamos sempre recomeçando
A cada novo dia
Uma nova esperança
Uma nova perspectiva
Um novo desafio
Estamos sempre recomeçando
Quando queremos recomeçar
E até quando não não queremos
O recomeço está lá
Em cada nova frase que proferimos
Em cada passo que damos
Em cada "bom dia"
Estamos sempre recomeçando
Quando temos um filho
Ou quando não temos
Nas opções que fazemos
E até quando não temos opção
Quando falamos com a alma
Ou quando falamos com o coração
Estamos sempre recomeçando
Quando escrevemos o que sentimos
Ou quando apenas sentimos
Ou quando apenas escrevemos
Ou quando simplesmente não sentimos
Quando queremos apenas
Recomeçar.

Belo Horizonte, janeiro de 2016

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Verso e reverso

Verso e inverso

O sossego da alma é a tranquilidade da segurança
A insegurança é o desassossego da tranquilidade
A intranquilidade é o desajuste do sossego
O ajuste é o martírio do desassossego
O martírio é a palma do desajustado
A palma é o prestígio do incansável
O cansaço é a recompensa da alma inquieta
A quietude é o calar da existência
O existencialismo é a inexistência do calar
O prestígio é a recompensa dos incaláveis
Ajustar-se é não se ajustar
Ser é não deixar de ser
Tranquilizar-se é abandonar-se às próprias divagações
Cansar-se é deixar-se levar
Infinitamente
Indistintivamente
Superlativamente
E mente
Mente
Nada mais.

Ana Glades, BH, inverno de 2015.